Olá, aqui é a Valéria Pazeto e este é o espaço digital de apresentação da publicação da Pedagogia dos Retalhos.
Espero que aproveite a dança...ou melhor, a navegação ;)


APRESENTAÇÃO

"Há alguns anos passados, recebi uma jovem magrinha, que se apresentou como alguém que desenvolvia um trabalho de dança para crianças carentes em Morro Agudo SP. Achei o trabalho inovador, levar arte para a população desprovida de atenção e recursos.

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PÉS QUE OUVEM, MÃOS QUE FALAM

Espetáculo virtual (2020)

Projeto Usina da Dança – Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça.

Trecho do livro Pedagogia dos Retalhos, págs. 173 à 177


Todo o sistema e componentes que regem nosso mundo contemporâneo fazem parte de um ciclo, onde cada ual exerce uma função de igual importância e onde todos executam suas tarefas cotidianas com base em um termo comum: o movimento.

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PÉS QUE OUVEM, MÃOS QUE FALAM

Espetáculo virtual (2020)

Projeto Usina da Dança – Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça.

Trecho do livro Pedagogia dos Retalhos, págs. 173 à 177


Todo o sistema e componentes que regem nosso mundo contemporâneo fazem parte de um ciclo, onde cada ual exerce uma função de igual importância e onde todos executam suas tarefas cotidianas com base em um termo comum: o movimento. Porque, entre as mais variadas justificativas (econômicas ou sociais), não podemos parar. Analogamente a uma coreografia composta por mais de 7 bilhões de pessoas, nosso planeta “dançam” todos os dias através de passos ensaiados, com ritmo e sincronia. Entretanto, como também pode acontecer em uma apresentação artística, a sociedade passa por intempéries que atrapalham essa harmonia e continuidade e, frequentemente, interrompem a música. O que acontece é que não conseguimos prevê-las.
E, com certeza, quando comemorávamos o réveillon para o início desse novo ano de 2020, não desejávamos que uma pandemia interrompesse nossa dança.
Em meados de março, a rápida proliferação do vírus COVID-19 (o novo Corona Vírus) despertou a preocupação do Brasil. Assim, grande parte das atividades sociais foram suspensas, com o objetivo de evitar aglomerações e minimizar o contágio pela prevenção. Isso também chegou a nós do Instituto Oswaldo Ribeiro de Mendonça, primeiramente através do cancelamento das aulas presenciais para os assistidos (a partir do dia 23-03), e depois das atividades presenciais para todos os funcionários (a partir do dia 01-04),
efetuando o isolamento residencial. Toda essa situação gerou a necessidade urgente de elaboração, por parte de toda equipe artística, administrativa e psicossocial unida, de novas formas e caminhos que dariam continuidade aos trabalhos programados.
Assim, a proposta mobilizou os profissionais para a construção de um fio invisível que possibilitasse o alcance do maior objetivo do IORM: a ligação das crianças e suas famílias à instituição.
Assim, para este ano, percebeu-se a defasagem infantil em relação às questões básicas do desenvolvimento psicomotor:
as crianças estão chegando até nós sem noções “direita e esquerda”, “agachar e levantar”, “frente e atrás”, “em cima e embaixo”, enfim falta esta parte da coordenação motora que está ligada a coordenação motora fina. Percebeu-se também as questões da influência das tecnologias, muito ligadas ao depoimento acima. Além de um adoecimento dessas crianças
por falta de atenção, de diálogo com os pais (intergeracional), amigos e questões intersetoriais.
Todas as questões evidenciadas pela observação, escuta ativa e interação com as crianças, suas famílias e a comunidade social, demonstraram um agravamento devido a Pandemia.
Assim, o principal objetivo aqui será alcançar a equilibração entre as coisas da natureza e as tecnologias, este sem desmerecer aquele, reconhecendo a importância e as especificidades de cada um na vida das crianças, pois no momento em que vivemos, os meios virtuais têm possibilitado conexões
e compartilhamentos mesmo durante o isolamento social.
Dessa forma, a percepção da defasagem desta geração atual com relação a noções corporais básicas e a falta de diálogo persistente, levou ao estudo do livro “Brinquedos do Chão” de Gandhy Piorski, como inspiração para a construção artística do ano 2020. Procura-se explorar e valorizar a descoberta e o contato das crianças com o chamado “primitivo”: os elementos da natureza, “dando asas” à imaginação e à sensibilidade dessas crianças. Aliado a isso, a dança em interação com meios midiáticos digitais não significa um formato de composição exaurido das emoções e subjetividades humanas.
O meio eletrônico constitui uma nova forma de expor a obra e estabelecer uma nova relação dialética entre o autor e o espectador. As novas tecnologias movimentam e transformam as fronteiras entre os humanos, diferenciando a experiência imediata suportada por sua corporeidade biológica, e a experiência mediada por artefatos tecnológicos, que trazem para o pensamento da dança paradoxos como presença/ausência, real/simulacro, próximo/longínquo.
A proposta é a elaboração de um “espetáculo virtual”, pioneiro perante toda história da Usina da Dança, que traga a harmonização entre natureza e digital tão urgente no atual cenário mundial e cujo título deriva justamente desta primeira oficina: “pés que ouvem e mãos que falam”.
Todo processo criativo, primeiramente realizada com os professores, e, posteriormente, com os alunos, apresenta-se como uma oportunidade de escutá-los e fazer todos se sentirem parte da obra. Nesse sentido, é essencial ressaltar que estamos vivendo uma situação excepcional, onde os
alunos tiveram pouquíssimas aulas presenciais e quase nenhum desenvolvimento técnico. Portanto, o principal objetivo será conseguir efetivamente atingir a todos os nossos assistidos de acordo com o contexto abordado, mas sem
exigir perfeições coreográficas e prevenir possíveis lesões.
Mais do que nunca, as reflexões que nos trazem o PROCESSO CRIATIVO precisam ser valorizadas e integradas tanto quanto o RESULTADO FINAL.
A inspiração para o título e sua ligação com todo o contexto
descrito, foi a percepção de que os pés podem ter muitos significados:
são apoio, a primeira articulação, a conexão com a terra, o enraizamento dentro da realidade de cada um... E as mãos dão vazão às expressões corporais, a gesticulação manual permite complementar o entendimento das emoções e sentimentos de quem fala para aquele que ouve e observa,
de acordo com cada situação vivida. Dessa forma, o conjunto de todo corpo desperto e em contato com a natureza e os elementos a sua volta, é sensibilizado, cria conexões e expande seus horizontes, em meio a uma formação harmoniosa e humana.
Por tudo isso, é importante refletirmos sobre como a arte vem como um refúgio de sanidade em tempos tão difíceis e o ser humano, felizmente de forma maioritária, desperta mais intensamente em si sentimentos de fraternidade e solidariedade.
Percebemos, sobretudo nesse período, a interdependência existente entre nós, como uma teia gigante que forma nossa sociedade, onde cada fio compõe um projeto maior, mas todos, sem exceção, tem uma importância única. Assim, pretendemos trazer essas questões para dentro do nosso projeto não apenas hoje, mas sempre, valorizando o trabalho em equipe, respeitando as diferenças e integrando todos nesses processos humanizadores capazes de gerar transformações pessoais e coletivas.



APRESENTAÇÃO

José Carlos Furlan Gomes, Psicólogo.

"Há alguns anos passados, recebi uma jovem magrinha, que se apresentou como alguém que desenvolvia um trabalho de dança para crianças carentes em Morro Agudo SP. Achei o trabalho inovador, levar arte para a população desprovida de atenção e recursos.

Pelas voltas da vida, sobrou-me, um tempo depois, destinar para o Grupo Colorado um projeto social. Recorri aquela jovem, e construímos o Projeto Expressão que originou o Instituto Oswaldo Ribeiro Mendonça.
Com esta aproximação pude ver o potencial de Valeria Pazeto. Já naqueles primórdios senti que o que ela fazia era diferenciado e muito além do que simples aulas para o desenvolvimento cinestésico de duas centenas de crianças e jovens.

Havia um requinte em transmitir um processo além da dança, uma preocupação incessante em desenvolver processos cognitivos e emocionais e de consciência daquela população num processo global de aprendizagem. A arte educa e refina as condutas.

Com o tempo, nossas conversas eram esparsas.

Porém, profundas e muito reflexivas. Valeria foi a luta e elaborou de forma competente todo o caminho do aprendizado da arte, com a arte e pela arte. Compreendi com ela, que a Arte e a Educação são, a cada instante, sinergéticas e complementares.

Como sempre, ela foi a luta e pesquisou, buscou, viajou para outras culturas e produziu uma proposta de um saber diferenciado e edificante.

A cada encontro, as nossas conversações versavam entre a angústia de se criar e a profundidade do saber, gerando consensos edificantes.
Sua vivência, conceituação teórica da sua práxis, e sua proposta inovadora, vão além do senso comum e dos, até então, infelizes protocolos segmentados de aprendizagem.

Tenho certeza que este precioso livro não é um mero instrumento técnico, ou um mero manual de conceitos; mas, uma rara oportunidade de refletir a Educação em um viés profundo e sabiamente edificador. É ir além das fronteiras.
Creio que a construção do saber criativo através da auto percepção e do valor agregado de inúmeras informações e a sistematização continua destes “retalhos” nos conduzem a uma preciosa colcha chamada vida.

Viver assim vale a pena, quando usamos a arte da vida como o viver aprendendo com a Arte.”